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quarta-feira, 27 de outubro de 2010

O debate sobre a carta aberta a Fernando Henrique Cardoso

Tenho recebido várias manifestações de apoio à Carta Aberta a Fernando Henrique mas também algumas críticas sérias, como as que me pede um esclarecimento um leitor que se coloca do meu lado sem ter os meios de respondê-las. Creio que vale a pena divulgar esta reposta pelo interesse que tem provocado a minha carta.



Estimado Valmir



Eu não disse que o plano real não derrubou a inflação e sim que se situou dentro de uma tendência deflacionária da economia mundial. TODOS os paises terminaram com a inflação neste período e não fizeram um plano real. Contudo, ao manter a moeda sobre valorizada e ao não tomar medidas estruturais contra a inflação e sobretudo ao elevar absurdamente os juros, a equipe econômica manteve a nossa inflação entre as mais altas do mundo. Não se trata de comparar a inflação do período Fernando Henrique com a fase que, em entrevista para os 40 anos do CEBRAP, Serra chamou de “superinflação” para distinguir de uma tendência ao crescimento infinito da inflação que seria considerada uma ”hiperinflação”. Trata-se de comparar a inflação do período FHC com a inflação de todos os outros paises. E a nossa inflação foi mais de 5 vezes mais alta que os casos mais bem sucedidos. Dizer que isto é sectarismo ou má analise econômica é demonstrar um delírio teórico insensato. Que teoria econômica pode considerar uma baixa inflação uma alta de preços 5 vezes maior que a do resto da economia mundial? É elementar exceto para quem está com a mente obliterada por uma propaganda absurda.



No que se refere às taxas de não crescimento no período Fernando Henrique não é correto colocar acima do Brasil os poucos paises citados. Existe uma ampla literatura científica comparando as taxas de crescimento do Brasil e de outros paises latino americanos sobretudo com as taxas de crescimento asiáticas. Os autores da crítica poderiam citar pelo menos os casos da China e da Índia. No governo Fernando Henrique se abandonou totalmente qualquer política industrial e se praticou uma política de juros tresloucada e um endividamento colossal. Ou os críticos vão negar também que o aumento da dívida pública no período foi simplesmente irresponsável? Em torno de 15 vezes!!!



É verdade que durante o governo Lula houve uma tendência internacional mais favorável no mercado mundial de matérias primas, explicada em grande parte pela explosão da demanda chinesa. Mas é claro que a política externa independente do governo Lula, aliada a uma política industrial no BNDES permitiram aproveitar a conjuntura e formar reservas tão impressionantes (seguindo uma tendência geral no mesmo sentido entre as economias emergentes). É verdade que a política macro econômica do Banco Central, que manteve em parte a política macro econômica equivocada do período anterior (pois finalmente houve uma queda da taxa de juros, insuficiente mas importante) impediu um crescimento maior do nosso comércio exterior e do nosso crescimento econômico. O compromisso do governo Lula com esta situação tem uma explicação política e não econômica. É notório o poder que exerce sobre os meios de comunicação este setor financeiro. Muitos consideram que não seria possível confrontar com o poder desta minoria à qual pertencem hoje em dia muitos dos quadros do governo Fernando Henrique. 



A verdade é que o governo Lula encontrou vários mecanismos para ampliar a demanda (melhor distribuição de renda e mais crédito) e garantir o crescimento econômico, inclusive numa fase de crise muito superior a todas que viveu o governo Fernando Henrique. O povo brasileiro soube reconhecer a competência do governo Lula que deve muito a Dilma. O PAC foi um destes instrumentos que se mostrou muito efetivo, assim como a amplitude do programa bolsa família, o apoio à economia solidária e outras políticas menos badaladas. 



Porque Dilma não atraiu os votos de todos os que consideram bom ou ótimo o governo Lula? Porque se aproveitou o pouco conhecimento da mesma pelo grande público, através de uma campanha de calúnias impressionante e porque Serra, blindado por uma imprensa a seu serviço, conseguiu transmitir a idéia de que dará continuidade ao governo Lula, obscurecendo suas alianças estruturais com a direita e suas declarações direitistas de política exterior e de seu compromisso com forças reacionárias internamente. Não há dúvida de que o próprio PSDB e até o DEM buscaram desligar-se ao máximo do governo Fernando Henrique, pois apesar de todos os mitos que se mantiveram sobre este governo, o nosso povo o rejeita definitivamente. 



Gostaria que os críticos lessem meus trabalhos nos quais se analisa muito mais em detalhe todas estas e outras questões paralelas e que não conseguiram ser publicados senão muito ocasionalmente na chamada grande imprensa do Brasil. Se tiverem interesse os remeto não somente ao meu blog mas também ao website da reggen ( www.reggen.org.br) ou ao site do Monitor Mercantil a cujo conselho editorial pertenço. Se podem ler espanhol, eu os remeto à publicação virtual do meu livro também esgotado em sua edição em espanhol: Do Terror à Esperança: Auge e Decadência do Neoliberalismo (Editorial Monte Ávila, Caracas. Pode-se baixar gratuitamente) ou à edição brasileira (Idéias & Letras, Aparecida, São Paulo)..

É bom esclarecer aos leitores que não conhecem minha obra que publiquei 43 livros e centenas de artigos em 20 línguas e mais de 40 paises, só uma parte deles no Brasil, estando quase todos esgotados..


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Prezado Theotonio,

Gostei MUITO da sua Carta aberta a Fernando Henrique Cardoso. Ajudou muito na compreensão do que foi realmente o Plano Real.

Entretanto não tenho fluência suficiente para responder a um comentário feito em um dos grupos de discussão na Internet que participo. Se não for abusar muito, gostaria que você o comentasse.

obrigado,

Valmir Miranda



"Puxa, O Plano Real não foi o responsável pela derrubada da inflação ? 

Hiperinflação mundial ? Eu lembro, era 230% na Holanda, 317% no Canadá, 86% na Inglaterra, 477% no Chile e 118% na França.

Aí, por razões conjunturais mundiais, todas caíram abaixo de 10%, como em uma epidemia. Devo ser o Eremildo (personagem do golpista Elio Gaspari).



Já que estamos falando de conjuntura mundial x mitos, analisei dados do Banco Mundial, sobre PIB per capita, período FHC x Lula.

Os países que cresceram mais no período FHC do que no período Lula foram:

Guiné Equatorial, Honduras, Jamaica, Bósnia, Zimbabwe, Belize, Granada e Liberia.



Todos os outros países do mundo tiveram crescimento maior no período Lula do que no período FHC; muitos deles com diferença bem maior que a brasileira, que é expressiva.

segunda-feira, 20 de junho de 2011

Uma vez mais sobre o debate com Fernando Henrique Cardoso

Numa entrevista à Folha de São Paulo, como comemoração dos seus 80 anos, Fernando Henrique volta a insistir na sua estratégia de se fazer consagrar como vitorioso contra o que nos nossos dias vem se consagrando como a “ala marxista da teoria da dependência” composta sobretudo por André Gunder Frank, Ruy Mauro Marini, Vânia Bambirra e Theotonio Dos Santos. Não sei se ele ou o jornalista resolvem transformar em fato o que eles crêem ser uma derrota definitiva desta corrente: segundo o jornalista ou o próprio Fernando seus membros representariam uma corrente “catastrofista” e estariam “caídos no esquecimento”.

Quem me manda uma nota que chama a atenção sobre este trecho da entrevista é um aluno do doutorado de Economia Internacional da UFRJ, que envia uma participação para o Congresso Anual da Sociedade Latinoamericana de Economia Política e Pensamento Crítico (SEPLA) que é um desdobramento de várias sociedades nacionais de economia política e pensamento crítico em plena expansão na região. Neste Congresso se organizou uma mesa sobre os 40 Anos da Teoria da Dependência que toma como referência o meu texto publicado na American Economic Review, publicação da Associação de Economistas do Estados Unidos. Nesta ocasião se divulgará a tradução recém realizada deste texto feita por um dos mais representativos professores da Faculdade de Economia da USP. Como assinalo na nota anterior deste blog ao discutir o fenômeno do brizolismo. Lembrem-se que Fernando Henrique pretendeu estar encerrando a Era Vargas com o seu governo. Ele anda enterrando muitas coisas mas o povo brasileiro considera mesmo que ele andou enterrando o Brasil. Por isto ele não acredita que o seu partido o PSDB possa estabelecer um diálogo com o “povão” e pensa seduzir a chamada “nova classe média’ que teria surgido com o “lulismo”, assim como os jovens que desconhecem seu governo.

Se querem maiores antecedentes para este debate, além do meu livro A Teoria da Dependência: Balanço e Perspectivas, Editora Civilização Brasileira (que foi traduzido ao chinês) indico o trabalho do doutorando Fernando Correa Bastos que faz parte de todo um movimento de redescoberta da teoria da dependência no Brasil que tem também uma forte dimensão internacional, na América Latina, no Caribe, na Ásia e nos próprios Estados Unidos, como já chamamos a atenção em outras partes deste blog.

Vejam abaixo: a parte do artigo sobre os 80 anos de Fernando Henrique na Folha de São Paulo e o resumo da comunicação de Fernando Correa Prado.

PERFIL

O provocador cordial

Aos 80, FHC se reinventa

RESUMO
Fernando Henrique Cardoso encontra no ativismo pela descriminalização da maconha uma forma de restituir a articulação entre atuação intelectual e carreira política. Ao buscar um arremate progressista para vida e obra, o ex-presidente delineia seu perfil entre "temperamento conciliador" e "pensamento conflitivo

TRECHO:

“CATASTROFISMO FHC passava a ser o grande adversário das teses catastrofistas em voga na época, segundo as quais países como o Brasil estavam condenados à estagnação e só teriam chances de se desenvolver fora dos marcos do capitalismo. Sociólogos como o americano André Gunder Frank e os brasileiros Theotonio dos Santos e Rui Mauro Marini, conhecidos como "dependentistas de esquerda" -hoje caídos no esquecimento-, partilhavam dessas ideias com razoável sucesso.
Em contraponto a eles, o livro que consagrou a teoria da dependência na versão fernandina seria um desdobramento das análises do "Empresário Industrial".”



História de um não-debate: a trajetória da teoria marxista da dependência no Brasil*
Fernando Correa Prado**


Resumo

O debate sobre a dependência na América Latina foi imenso. Nos anos 1960 e 1970, um conjunto de intelectuais e militantes, de variada origem e filiação política, tratou do tema da dependência, geralmente utilizando este conceito como característica central de suas análises sobre as regiões periféricas, em particular sobre a região latino-americana. Esse amplo debate ocorreu em muitos países da América Latina e também em outras partes do mundo, repercutindo em diversos intelectuais no mundo todo, gerando uma base teórica e histórica firme para construir uma interpretação crítica do papel da América Latina dentro do sistema mundial capitalista e ainda contribuindo para pensar caminhos políticos de superação das contradições características da estrutura periférica e dependente. No Brasil, porém, essa história foi diferente. Aqui foi se construindo uma espécie de “pensamento único” sobre o tema da dependência centrado em grande medida na perspectiva defendida por Fernando Henrique Cardoso, de tal modo que se firmou um relativo desconhecimento e até mesmo deformação das contribuições inscritas na tradição marxista, dentro da qual estariam as obras de Andre Gunder Frank, Theotônio dos Santos, Vânia Bambirra e Ruy Mauro Marini. Revelar como isso foi produzido e reproduzido em diversas e influentes publicações é a principal intenção deste artigo.

Palavras-chave: pensamento econômico-social brasileiro; teoria marxista da dependência;
debate intelectual.

Abstract

The debate about dependency in Latin America was immense. In the sixties and seventies, a group of intellectuals and activists of varied origin and political affiliation adopted the issue of dependency, often using this concept as a central element of their analysis on the peripheral regions, particularly on the Latin American region. This extensive debate took place in many Latin American countries and also in other parts of the world, reflecting in several intellectuals worldwide, generating a firm theoretical basis and historical interpretation about the role of Latin America within the world capitalist system, and even helping to think about ways of overcoming political contradictions of the peripheral and dependent structure. In Brazil, however, this history was quite different. Here existed a kind of “unique thought” on dependency analysis, focused largely on the approach produced by Fernando Henrique Cardoso, giving place to a relatively ignorance and even deformation of the contributions inserted in the Marxist tradition, within were inscribed the works of Andre Gunder Frank, Theotônio dos Santos, Vânia Bambirra and Ruy Mauro Marini. Reveal how it was produced and presented in several influential publications is the main intention of this paper.

Key words: Brazilian social-economic thought, Marxist dependency theory; intellectual debate.

* Esta é uma versão reduzida de um texto originalmente escrito para o seminário “Teoria marxista da dependência no Brasil: de Ruy Mauro Marini aos dias de hoje”, realizado no dia 04 de novembro de 2010 como parte do II Curso sobre Conjuntura - Marxismo latino-americano, Imperialismo, e a conjuntura políticoeconômica de nosso continente, organizado pelo jornal Brasil de Fato e Escola Nacional Florestan Fernandes.

Agradeço a revisão e os comentários de Gustavo Pinto de Araújo, assim como a leitura crítica de Rodrigo Castelo. Obviamente, todos os problemas do artigo são de minha completa responsabilidade.

** Economista pela Universidade Federal de Santa Catarina, mestre em Estudos Latino-Americanos pela Universidade Nacional Autônoma do México e atualmente doutorando em Economia Política Internacional na Universidade Federal do Rio de Janeiro. Correio eletrônico: fernandoprado@gmail.com

quinta-feira, 18 de junho de 2009

A atualidade da teoria da dependência

www.monitormercantil.com.br - 20/11/2000 - 16:11

"Nunca fomos externos ao capitalismo e cumprimos um papel importante na evolução do sistema de comércio atual". A frase é de Teothônio dos Santos, autor da Teoria da Dependência, formulada em meados da década de 60, que vê a expansão da economia capitalista mundial como geradora, simultaneamente, de desenvolvimento e subdesenvolvimento e que rompeu com a visão dominante no pós-guerra, segundo a qual as economias das antigas colônias, subdesenvolvidas, se encontrariam em estágio feudal ou pré-capitalista, necessitando passar por uma revolução industrial para chegarem à "modernidade".

A Teoria da Dependência, que tem em Theotônio dos Santos, do Conselho Editorial do MONITOR MERCANTIL, um dos principais pensadores, analisa os países hegemônicos (desenvolvidos) como captadores dos excedentes econômicos das nações periféricas (subdesenvolvidas). Essa teoria conta, inclusive, com o sociólogo Fernando Henrique entre seus mais destacados adeptos. No entanto, no livro Teoria da Dependência - Balanço e Perspectivas, que Theotônio dos Santos acaba de lançar pela editora Civilização Brasileira, o autor, ao tempo em que faz um balanço e uma atualização do tema, deixa claras suas profundas divergências com as conclusões de FH.

MONITOR MERCANTIL - Como surgiu a Teoria da Dependência?

Theotônio dos Santos - A teoria foi formulada nos anos 60, quando o golpe de Estado no Brasil chamou a atenção para questões fundamentais. As aspirações por um desenvolvimento nacional independente como conseqüência do desenvolvimento industrial da região latino-americana, que vinha se industrializando da década de 30 para cá, foram frustadas devido ao aumento da dependência da região para com o capital estrangeiro. Os empresários nacionais descobriram que não poderiam liderar o processo de industrialização, que estava já dominado pelas empresas multinacionais, que não transferiam tecnologia senão sob a forma do investimento direto que as permitia controlar a produção dos países onde investiam. Isso foi se intensificando em países como o Brasil, que estavam na ponta do desenvolvimento e obrigou a uma revisão na perspectiva do pós-guerra, sobretudo, com o ingresso de novas nações independentes. Por outro lado, a economia neoclássica pregava que cada economia do mundo se especializasse num tipo de produção para que pudesse obter o máximo de vantagem.

MM - Esta tese continua atual, não é?

TS - Voltou porque todo esse contexto de dependência aumentou muito. Nos anos 50 pelo menos havia uma aspiração nacional democrática. O golpe de Estado no Brasil mostrou que a classe dominante estava disposta a chegar a uma condição de sócia menor do capital internacional, ao invés de pretender uma autonomia e uma proposta própria. Um segundo aspecto ligado ao golpe de 64 é que o caminho para esse ajuste com o capital internacional parecia ser fundamentado em uma fórmula ditatorial, de tendência fascista. Começamos a ver que o golpe não era de setores atrasados da economia, como latifundiários. Eram setores da indústria avançada, orientados pelo capital internacional, o que indicava que a forma de violência organizada e de terror não vinha de setores que estavam perdendo poder. Isso também ia contra a noção de que desenvolvimento deveria gerar democracia. Houve um refinamento e uma institucionalização da repressão fora do comum, tanto internamente como externamente.

MM - As antigas colônias ainda eram vistas como pré-capitalistas, na época?

TS - A idéia é de que os países subdesenvolvidos ainda não teriam ingressado no capitalismo e que teriam que passar por todas as etapas de desenvolvimento que os demais. Os fatos, desde a década de 40, já estavam demonstrando, no entanto, que os países do Terceiro Mundo teriam que passar por fórmulas políticas novas para atingirem a modernização. A maior parte das economias do Terceiro Mundo teve papel muito importante no desenvolvimento mundial, como o caso do Brasil. Pensar essas economias como feudais e exteriores ao capitalismo era de uma ignorância histórica colossal. Contudo, era a idéia dominante. Pensar que essas economias poderiam refazer o caminho do capitalismo também era uma idéia totalmente falsa. Então, se começa a buscar um caminho alternativo. No caso da revolução cubana, por exemplo, o objetivo era a democracia, mas o país foi obrigado a buscar novas formas econômicas, sociais, políticas que apontavam na direção do socialismo, o que era um fato novo na América Latina. Era preciso adaptar-se em primeiro lugar à resistência que o capital internacional oferecia e dar soluções abrangentes para sustentar as transformações sem contar com as lideranças empresariais. O grande salto da Teoria da Dependência foi ver esse conjunto de transformações como parte da economia mundial, num enfoque global.

MM - O que mudou hoje e que o levou a atualizar a teoria?

TS - A evolução que houve foi a ampliação para uma análise de uma teoria do sistema mundial, que explique inclusive o processo de globalização e a tendência da economia capitalista de cada vez mais condensar o seu espaço numa forma mais densa de integração do sistema capitalista mundial. A articulação entre as várias partes da economia mundial avançou muito mais, apesar de outros fatores terem se desarticulado. Isso exigiu mais clareza sobre a análise da economia mundial, desenvolvida sobretudo na década de 70, em conjunto com colegas norte-americanos, europeus, etc., que assumiram nosso ponto de vista e, como desdobramento da Teoria da Dependência, passaram a trabalhar a idéia de um sistema econômico mundial. Infelizmente, no Brasil há um desconhecimento muito grande de toda essa evolução da teoria social contemporânea.

MM - No livro, o senhor destaca 18 países, entre eles o Brasil, que seriam fundamentais até para a manutenção da paz. Qual seria essa função no sistema mundial?

TS - O sistema mundial, do ponto de vista político, não resolveu bem a questão da participação dos centros de poder mais importantes do mundo na estruturação da política mundial. Do ponto de vista econômico, o G-7 reuniu as sete grandes potências, tendo que integrar a Rússia depois. Mas deixou de lado China, Índia e Brasil, que são potências extremamente significativas. Se nós medirmos a renda nacional do ponto de vista do poder de compra, que é a nova metodologia do Banco Mundial, vamos constatar que a maior renda nacional é realmente os EUA, com US$ 8 trilhões, mas logo em seguida vem a China, com US$ 4,5 trilhões. Depois vêm Alemanha, Japão e Índia. O Brasil seguramente está entre as 10 grandes potências. Então o sistema de decisão econômica de integração de políticas exclui algumas das potências mais importantes do mundo. O Conselho de Segurança da ONU exclui Alemanha e Japão, países derrotados na Segunda Guerra, inclui a China, mas não inclui a Índia, que é uma potência militar muito importante como também Irã ou Paquistão, que têm um peso militar enorme. Tudo isso sem falar nos países que não são potências. Estes estão excluídos totalmente, já que a Assembléia Geral da ONU não consegue fazer valer suas decisões. O problema se agrava com o fato de que as empresas multinacionais atuam hoje no mundo inteiro com estratégias de ação micro e macro sem que haja nenhum controle global sobre elas.

MM - Neste contexto, qual o papel dos acordos regionais tipo Mercosul e Alca?

TS - Eles consolidam uma realidade geopolítica, apesar de que o imperialismo tende a pôr cada uma das economias nacionais muito mais em relação com o centro do que com seus vizinhos, numa irracionalidade econômica muito grande. Na medida em que nos últimos 20 anos tivemos uma crise muito séria, essas forças regionais foram aumentando sua presença. No caso Europeu, destruído o sistema colonial, a Europa teve de voltar-se para dentro de si mesma e contrabalançar a influência norte-americana e a expansão russa. Quanto à América Latina, os EUA sempre impediram qualquer política até o final da década de 80, mas não puderam impedir a integração Ibero-Americana, que, apoiada na integração européia, incluía Portugal e Espanha. A América Latina precisou criar condições políticas para que pudesse se integrar e o Mercosul se desenvolveu com mais facilidade porque Brasil e Argentina pela primeira vez puderam entrar numa política de cooperação em meados da década de 80, com a redemocratização da região. Sem maiores investimentos, passamos de 6% para 22% de comércio com a América Latina. A Alca é uma resposta a isso, procurando manter a região sob comando norte-americano, mas de qualquer maneira ela já reconhece o desenvolvimento de movimentos sub-regionais.

MM - A Teoria da Dependência é uma expressão do pensamento autônomo latino-americano. Hoje esse grau de autonomia diminuiu?

TS - Houve um retrocesso no pensamento latino-americano. Tínhamos toda uma geração de economistas formada nos EUA através de vários mecanismos. No princípio não era tão grave porque o grupo neoliberal não tinha um controle tão grande sobre as universidades americanas. O pensamento liberal sempre foi associado ao fascismo, que é o regime de terror do grande capital, e todo esse movimento ressurgiu a partir de Pinochet, no Chile. Hitler, Mussolini, Franco ou Salazar chegaram ao poder em situações inflacionárias fortes, impondo políticas de inspiração liberal, monetarista, com várias formas de maquiar uma forte intervenção estatal. Um contexto de política anti-estatal que termina fortalecendo o Estado, como o golpe de 64, com a concentração e centralização do capital para desenvolver um capitalismo de Estado, fundado no capital financeiro. A América Latina precisou dessas soluções especialmente na década de 60. Pouca gente compreende o conteúdo global do fenômeno do fascismo. Se olharmos a Europa dos anos 40 veremos que era toda fascista. Houve também uma experiência asiática, liderada pelo Japão. Fora o caso alemão, a repressão do Estado no fascismo não precisou de uma organização político-partidária para se sustentar. No pensamento neoliberal, o Estado deixa de entrar na parte econômica mas passa a ser absolutamente necessário para regular a força de trabalho ou a oferta de moeda. Quer um bom exemplo disto? O grupo que fez o plano Real foi quem traduziu, com introdução de Gustavo Franco, o livro de memórias do ministro da economia de Hitler e o apresenta como inspirador do plano Real.

MM - Em seu livro, o senhor surpreende ao dizer que o presidente Fernando Henrique não renegou o que tinha escrito, como ele próprio afirmou. Porquê?

TS - Desde 1973, Fernando Henrique começa a romper com as correntes da Teoria da Dependência que procuravam caracterizar a dependência como um limite para o desenvolvimento integral, capaz de corresponder às necessidades da população, para demonstrar que era possível o desenvolvimento dependente. Nós concordávamos que na dependência há um desenvolvimento, mas ele é extremamente concentrador e excludente, que não resolve os problemas da população, pois cria mecanismos de exclusão extremamente violentos, que inspira fórmulas fascistas. Fernando Henrique procurou mostrar que não. De fato, na década de 70 o imperialismo americano entrou em choque com os regimes militares que ele mesmo criou na década de 60, pois esses regimes estavam inspirando propostas nacionalistas de direita que não interessavam para a expansão do sistema mundial, representavam um problema para a globalização.

MM - Mas, por conta disto, não houve um movimento de redemocratização?

TS - Nesse sentido, a análise de Fernando Henrique parecia correta. Acontece que o que se chamava de democratização nesse processo é uma coisa muito limitada. O que se tentou criar realmente foram regimes muito controlados. Fernando Henrique não viu que não há democracia sem soberania nacional, sem que o Estado tenha meios para decidir sobre a própria vida nacional. Desde 79, em artigo contra Ruy Mauro Marini (cientista social), cuja resposta não foi divulgada pela imprensa brasileira, Fernando Henrique já tinha manifestado uma tendência pró manutenção da dependência. A resposta de Marini dizia: "Fernando Henrique Cardoso ou Porque eu amo a minha burguesia". O texto mostrava que Fernando Henrique estava reivindicando uma condição subordinada das burguesias latino-americanas e do Estado como uma fórmula de convivência com a economia mundial. Na verdade ele já estava nessa posição há muito tempo atrás. Não foi uma coisa de última hora e ele chegou a formar toda uma geração de pensadores econômicos e sociais com essa linha. Ele conseguiu, segundo declarou, "trancar uma porta da juventude brasileira para os pensamentos radicais". Conseguiu impedir realmente que as outras correntes fossem estudadas. Suas posições conduziam à sua postura atual, que é uma posição de conciliação com os setores mais conservadores e com a situação de dependência, sem nenhuma pretensão de transformação social profunda, sem nenhuma reforma estrutural.

MM - Na prática, o que isto significou?

TS - Simplesmente um ajuste à condição de dependência, para que ela flua mais e possa haver maior dinamismo. Mas nem isso ele alcançou porque na verdade essa abertura não gerou dinamismo econômico como em outras partes do mundo, como no Chile. Mas lá tinha havido a reforma agrária no governo Allende e o golpe de Estado não pôde recuar. No Brasil, o golpe impediu a reforma agrária. Então não se gerou uma burguesia agrária dinâmica como a classe média chilena que assumiu o setor agrário. O Chile também estatizou as reservas de cobre, mais de 60% da exportação chilena. Em 1982, a crise financeira no Chile era tal que mesmo o regime militar teve que estatizar o sistema financeiro. Aqui o governo está tentanto passar um crescimento de 3,5% como uma coisa fantástica, depois de passar dois anos estagnado. É uma coisa pífia.

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

Continua o debate sobre a teoria da dependência

O Dr.Alberto Noé, professor da Universidade de Buenos Aires, explica as razões do cerco informativo realizado contra Ruy Mauro Marini, a partir do artigo de Fernando Henrique Cardoso e José Serra deformando suas teses e criticando uma fantasmagórica teoria da estagnação que é exatamente a negação da visão dialética que Marini e de nosso grupo do que se conhece hoje como a teoria crítica ou marxista da dependência. Alberto Noé trabalhou na FESP-RJ comigo, secretariou a realização do Congresso Latino Americano de Sociologia que eu presidi em 1985 e a pesquisa sobre movimentos sociais da Universidade das Nações Unidas, cuja parte brasileira esteve sob minha direção. Ruy Mauro Marini atuou muito amplamente na FESP durante esse período, antes de retornar ao México para dirigir o Centro de Estudios Latinoamericanos (CELA) da UNAM. Ele conhece bem de perto, portanto, o tema deste artigo.


Ruy Mauro Marini e A Dialética da Dependência

Alberto Noé (*)

Um dos mais brilhantes intelectuais brasileiros, consagrado no México, onde se exilou, e em toda a América Latina, levou três décadas para ser editado em seu país.

Dois anos depois de sua morte, esse acontecimento editorial vale como um resgate. Os anos 70 ficaram gravados na historia da América Latina como "os anos de chumbo". Entretanto é importante assinalar que aquela foi uma década de exílio quando a cidade de México se tornou o cenário de convergência de numerosos acadêmicos e cientistas sociais latino-americanos.

Dentre eles destacava-se Ruy Mauro Marini, "o mais latino-americano" dos intelectuais acadêmicos, por sua importante obra, embora desconhecida do leitor brasileiro. Depois de quase trinta anos de sua primeira edição em espanhol, essa obra é editada em sua língua materna.

Como se explica esse atraso?

Varias gerações de cientistas sociais não tiveram o privilegio de conhecer seus textos, paradoxalmente publicados e difundidos na América Latina, mas ignorados no Brasil. É com esta perplexidade que começo esta resenha.

Marini, falecido há dois anos, iniciou sua vida acadêmica na Universidade de Brasília (UnB).
Depois do golpe militar de 1964, exilou-se no Chile, onde foi professor da Universidade de Chile até a queda do governo de Allende em 1973. Posteriormente radicou-se no México. Lá, lecionou na Universidade Nacional Autônoma de México (UNAM) - o grande cenário de sua consagração intelectual - onde produziu a maior parte de sua obra. Tive a honra de ser seu aluno na UNAM.
Em seu livro, Marini procura distinguir as principais características que vem assumindo a superexploração da força de trabalho na América Latina, a partir dos anos 70, quando se afirma a crise da industrialização voltada para o mercado interno e se inicia na região um giro no sentido de sua inserção numa economia mundial globalizada sob o domínio de políticas neoliberais. O conceito de superexploração do trabalho foi estabelecido por Marini no final da década de 60, enfatizado sua relação com a gênese da acumulação capitalista.

O autor afirma, em sua obra, que o regime capitalista de produção desenvolve duas grandes formas de exploração: o aumento da força produtiva do trabalho e a maior exploração do trabalhador. O aumento da força produtiva do trabalho se caracterizaria pela produção de mais quantidade no mesmo tempo e com o mesmo gasto de força de trabalho; e a maior exploração do trabalhador se caracterizaria por três processos, que poderiam atuar conjugadamente ou de forma isolada, representados pelo aumento da jornada de trabalho, pela maior intensidade de trabalho sem a elevação do equivalente em salário e pela redução do fundo de consumo do trabalhador.

O conceito de superexploração da força de trabalho começa a se esboçar em Subdesarrollo y revolución (1968), adquire uma forma mais sistemática em Dialéctica de la dependencia (1973) e continua a se desenvolver em Plúsvalia extraordinária y acumulación de capital (1979), Las razones del neodesarrollismo (1978), y El ciclo del capital en la economía dependiente (1979).

Por outro lado, é importante ressaltar que a corrente dependentista deu margem a varias vertentes do pensamento, não se tornando dessa forma, homogênea em seus postulados básicos.

Se existe por um lado a perspectiva de integração subordinada de Fernando Henrique Cardoso, por outro há a perspectiva da dialética da dependência e da superexploração da força de trabalho, de Marini.

Nos últimos anos, houve um certo consenso entre autores de diversas correntes teóricas y acadêmicas em torno à afirmação de que se "esgotou" a "teoria da dependência"; sobretudo aquela desenvolvida pelas reflexões criticas durante os anos sessenta y setenta.

Neste sentido destaca-se a corrente da "nova dependência" - representada por Fernando Henrique Cardoso e Enzo Faletto -, que teve muita difusão no Brasil nos últimos anos, tentando invalidar os representantes da corrente critica da dependência, entre eles, Ruy Mauro Marini.

Nesse contexto é possível entender a publicação de um artigo assinado por Fernando Henrique Cardoso e José Serra, em 1978, atacando Ruy Mauro Marini, que teve, sobretudo no Brasil, importância na formação da opinião sobre a sua obra.

Isto deve-se não apenas à projeção desses autores no âmbito das ciências sociais brasileiras, mas também ao fato de a crítica à obra de Marini haver sido divulgada no Brasil, a partir da Revista do Cebrap, sem que ele tivesse tido direito a resposta, como ocorreu no México, mais precisamente na Revista Mexicana de Sociologia.

Marini se refere a esse triste episódio como uma forma encontrada por Cardoso e Serra para deturpar suas reflexões e deformar, quase sempre, suas analises e, assim, poder criticá-las, manipulando os dados que utiliza: o leitor o entenderá melhor se levar em conta que o artigo é dirigido fundamentalmente à jovem geração brasileira, que conhece pouco ou quase nada da obra de Marini.

Isso é o que levou Fernando Henrique Cardoso e José Serra a adaptá-lo, livremente, aos fins que se propuseram. Seguramente, teriam procedido de outra maneira se fossem dirigidos a um publico mais familiarizados com os textos de Marini.

(*) Doutor em Sociologia pela USP.
Professor do Doutorado em Ciências Sociais – Universidade de Buenos Aires.

sábado, 30 de outubro de 2010

Último dia para o debate sobre o governo Fernando Henrique.

Querida Ceci


Estou preparando uma resposta para Victor que não localizei até agora. Suas críticas são honestas. Coisa rara neste clima eleitoral, mas equivocadas. Vou resumir para você meus argumentos sem a base técnica necessária pois não é adequado neste clima apresentar em detalhe os dados. Seria para um trabalho acadêmico. Em todo caso como já escrevi alguns livros e artigos sobre os temas levantados creio ter o direito de prescindir de detalhes e provas na discussão.


Quanto ao índice de aprovação. Segundo os últimos números: Lula tem 86% de ótimo e bom governo. Além disso. Tem 8% e algo de regular. Normalmente se considera a definição de regular como aprovação. Pode-se discutir mas é a prática.
Quanto à queda das inflações ou deflação mundial em 1994 não vou discutir aqui pois os dados estão à mão.

Há várias explicações: eu considero, e o defendi antes mesmo que o fenômeno ocorresse, que os acordos da dívida externa em função do plano Brady levariam à queda da super inflação nos nossos paises. Ademais, a queda da taxa de juros mundial de 16% para 4% teria uma implicação evidente na inflação. Só os ideólogos do Fernando Henrique antigos e os infiltrados no governo Lula podem acreditar que taxas de juros altas são deflacionárias. Toda pessoa razoável sabe que a taxa de juros faz parte da formação de preços e afeta a taxa de lucros levando à transferência do seu aumento para os preços. A queda do dólar na crise de 1987 foi também um forte fator de desvalorização de ativos mundiais. Por fim, para consolidar esta tendência, a queda dos preços dos produtos industriais em escala mundial, onde a China participou intensamente, sobretudo a partir dos anos 90, exerceu um papel fundamental. Como estabelecemos moeda supervalorizada, acabamos com os superávits fiscais dos anos 80, e apresentamos déficits fiscais que produziu algum efeito deflacionário já que as importações ganharam um papel enorme. Eu explico tudo isto num artigo divulgado no congresso Latino americano de economia realizado aqui no Rio no começo da década de 90 e em vários outros artigos da época. Finalmente incorporei este raciocínio com mais elementos no meu livro Do Terror à Esperança: Auge e Decadência do Neoliberalismo, Editora Idéias & Letras, Aparecida, S.P, 1994. (Nota: este livro que ganhou menção honrosa no concurso Simon Bolívar, Premio ao Pensamento Crítico, e foi co-editado pelo Banco Central da Venezuela, já esgotou sua edição em espanhol, mas pode-se baixar o mesmo gratuitamente entrando no site da Editorial Monte Ávila, Caracas. A tradução para o chinês –mandarim – já está pronta e deve sair logo na China).. O GRAVE PORÉM É QUE A SOBREVALORIZAÇÃO DO REAL E OS MECANISMOS UTILIZADOS PARA ESTABELECER A CHAMADA ÂNCORA CAMBIAL ELEVARAM ESTÚPIDAMENTE OS PREÇOS NO BRASIL E MESMO ASSIM CONTINUAMOS A TER UMA INFLAÇÃO 4 A 5 VEZES MAIS ALTA QUE A INFLAÇÃO DOS PAISES CENTRAIS. A EXPLICAÇÃO PASSA PELAS ENORMES TAXAS DE JUROS QUE PAGAMOS (FONTE DE INFLAÇÃO TAMBÉM PORQUE O PAGAMENTO DE JUROS CORRESPONDE A GASTOS PÚBLICOS E PORTANTO SÃO INFLACIONÁRIOS). O próprio Serra andou chamando a atenção para isto, mas preferiu ficar no governo juntando sua sorte à do governo Fernando Henrique. Males do oportunismo... O que é ridículo é que a imprensa brasileira queira nos meter pela guela a famosa responsabilidade fiscal e o equilíbrio de nossa moeda. Não há nenhum economista sério ( e o Victor tem que concordar com isto! ) que aceite a idéia de que uma moeda que se desvaloriza mais de 4 vezes (400%) em 8 anos seja uma moeda forte e sadia e equilibrada e outros adjetivos de pura propaganda. Assim como não se pode aceitar a idéia de que um governo que aumentou sua dívida umas 15 vezes (1.500%!!!) em 8 anos seja um caso de “responsabilidade fiscal”... Não vou discutir os dados com Victor porque são públicos e não contestados.


É ridículo também que o Fernando Henrique e seus seguidores queiram defender a tese de que a flexibilidade cambial é parte do Plano Real quando era um dos seus princípios básicos a famosa ANCORA CAMBIAL que representa exatamente o cambio fixo. No caso argentino chegaram a colocar na constituição... a igualdade entre o peso e o dólar. À toa não foi? Porque quando a crise chegou tiveram que abandonar desordenadamente a famosa âncora e deixar sua moeda flutuar irresponsavelmente no mercado cambial dominado pelas especulações mais absurdas ( que o diga Cocciola que não foi informado a tempo e teve que ganhar uma compensação do seu sócio no banco Central, em nome do risco de uma “crise sistémica” que se tornou pública, levando-o à cadeia enquanto o então presidente do Banco Central continua solto e nenhum deles aparece nas fotos de corruptos - não condenados ainda - publicadas pela guerra psicológica desatada pelos propagandistas da candidatura Serra).


Bom. Não tenho paciência para continuar enumerando as desgraças que os incompetentes “sábios” produziram no governo Fernando Henrique.

O governo Lula não foi perfeito. Mas também com um estado sucatiado pelas privatizações e com os compromissos que teve de fazer para poder tomar posse e livrar-se de uma sabotagem sistemática do chamado “mercado” e da nossa “livre e democrática” grande imprensa não podíamos esperar isto. Talvez agora as forças reacionárias do pais estejam desesperadas porque esgotaram grande parte destes instrumentos de submissão cognitiva da população. As pessoas estão pensando por sua conta. Estão vendo os fatos e so uma minoria se deixa levar pela propaganda. Disseram primeiro que a Dilma não aguentaria um confronto com o Serra. Na medida que o povo a conheceu foi debandando para o seu lado, apesar da suja campanha de calúnias e boatos que armaram contra ela. O povo não quer um político sem caráter, capaz de ajustar-se a todas as pressões. O povo quer alguém firme que o defenda e dê continuidade ao governo que ele aprova e quer manter. E esta pessoa é a minha querida amiga DILMA.


Mulher combatente, guerreira, competente, séria e decidida.


ADIANTE DILMA! TERÃO QUE BAIXAR A CABEÇA DIANTE DAS CALÚNIAS QUE TE FIZERAM. VOCÊ PROVARÁ COM SUAS AÇÕES QUE PODE DAR CONTINUIDADE COM FIRMEZA E CREATIVIDADE A ESTA EXPERIÊNCIA DE GOVERNO QUE ENCHE DE ORGULHO OS BRASILEIROS E OS POVOS DE TODA AMÉRICA LATINA.


Se você quiser mais manifestações minhas sobre as eleições entre no Google em “Theotonio Dos Santos – Dilma”.





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quarta-feira, 2 de março de 2011

AINDA SOBRE A CARTA ABERTA A F.H.C.. ALGUNS ESCLARECIMENTOS DEPOIS DA PAIXÃO ELEITORAL.

RECEBI CENTENAS DE COMUNICAÇÕES SOBRE A MINHA CARTA ABERTA A FERNANDO HENRIQUE CARDOSO. MUITAS (A MAIORIA) FRANCAMENTE FAVORÁVEIS. OUTRAS CHEIAS DE RIDÍCULAS OFENSAS. OUTRAS BUSCANDO ESCLARECER ASPECTOS QUE FICARAM POUCO EXPLICADOS. ENTRE ESTAS DESTACO A CORRESPONDÊNCIA ENVIADA HÁ POUCO POR ORLANDO LIMA. QUE BUSQUEI RESPONDER POIS ME PARECIAM OBJEÇÕES HONESTAS. É LAMENTÁVEL CONTUDO VER A QUANTIDADE DE PROFESSORES DE ECONOMIA QUE DESCONHECEM A MINHA OBRA E ATÉ UM QUE ME ENVIAVA COSELHOS SOBRE COMO PODIA ACOMPANHAR A SITUAÇÃO ECONÔMICA MUNDIAL CITANDO REVISTAS INTERESSANTES DE GRANDE DIFUSÃO COMO THE ECONOMIST. SERIA CÔMICO SE NÃO FOSSE EXPRESSÃO DO NÍVEL DE NOSSAS FACULDADES DE ECONOMIA EM GERAL E DO BOICOT QUE SOFRE NOSSO PENSAMENTO NA ACADEMIA BRASILEIRA.

Caro Orlando

Você coloca sempre honestamente problemas importantes e merece minha atenção pois isto é uma raridade.
Mas vejamos bem o problema da chamada corrupção. Corrupção seria o uso ou desvio dos recursos públicos em benefício do patrimônio privado, Porém este desvio é definido por lei e não pela importância dos recursos utilizados. Ora, as leis e os mecanismos de sua interpretação são controlados exatamente pelos maiores beneficiários dos recursos públicos. Por exemplo: Segunda lei de responsabilidade fiscal, apresentada como um caso exemplr de combate à corrupção, se um governador destinar 1milhão de reais à construção de uma escola sem dispor dos recursos necessários, gerando uma dívida pública não coberta, el pode ir para a cadeia, segundo a lei. Contudo, 7 dirigentes do Banco Central podem DECIDIR aumentar a taxa de juros paga pelo governo em porcentagens não definidos sem nenhuma fonte de renda existente, aumentando assim radicalmente o gasto público em cerca de 10 BILHÕES DE REAIS e simplesmente obrigar o governo a diminuir os gastos públicos destinados à nossa precária educação, saúde, sanidade, pesquisa, et.,etc. para encontrar o financiamento desta decisão. Cabe uma pergunta imediata: a função do Estado é garantir educação, saúde e outras necessidades básicas da população ou é pagar juros. Creio que o pagamento de juros não é função do Estado e nenhum teórico ou filósofo político se atreveria a defender este ponto de vista. Mas você poderia dizer: O aumento da taxa de juros é necessário para garantir o chamdo equilíbio econômico... Cabe responder contestaondo cad item desta afirmação:

Não há nenhuma teoria econômica e nenhuma evidência empírica que prove esta afirmação de que os juros altos são uma maneira de combater a inflação. Ademais, a que altura? Segundo premio Nobel de economia neoliberal Allain, o maior especialista deles em taxas de juros, as taxas de juros pagas pelo Estado não podem estar próximas da taxa de crescimento do país, pois neste caso seriam uma simples transferência de recurso para o setor financeiro impedindo o desenvolvimento. Estas são palavras bonitas para descrever o roubo mais violento e descarado dos recursos públicos. Sabe quanto soma os gastos em pagamento de juros do Estado braileiro? Simplesmente eles representam em torno de 30% do gasto público. Sim, o povo brasileiro paga 1/3 dos impostos que desigualmente le cobram para sustentar em torno de 30.000 cidadãos brasileiros que vivem do pagamento dos absurdos juros da dívida pública. Grande parte deles extrangeiros que remetem estes lucros para o exterior obrigando os brasileiros a trabalhar brutalmente para exportarem mais do que importam para dispor de um superávit comercial que financie estas aventuras econômicas.
Repito: Os argumentos que eles usam para a defesa destes juros altos estão em choque com a boa teoria econômica (inclusive esta teoria de baixo nível neo liberal que eles dizem cultivar). Trata-se portanto de um roubo colossal e eles não podem ser declarados corruptos apesar de sair dos governos convertidos em banqueiros quase todos. Você nunca encontrará ma campanha na imprensa expondo esta situação. Pode até encontrar uma pequena nota aqui ou ali, mas nunca algo que fique na sua memória, pois há uma aliança inabalável entre o sistema de comunicação e o sistema financeiro. Não vou me aprofundar nisto pois já provei muitas vezes que em vez de combater a inflação, os altíssimos juros praticados pelo governo brasileiro são a principal fonte de inflação no nosso país. Mas tenho sido ouvido somente pela imprensa internacional ou por pequenos meios de comunicação no Brasil. Nas vezes que estive na televisão sempre me cortaram quando entro nestas questões, razão pela qual não me disponho mais a ir dizer o que eles querem. Ademais uma simples entrevista curta não pode contrarrestar horas e horas de mentiras.
Você dirá: Mas o Lula manteve a autonomia do Banco Central. Sim, foi um preço altíssimo para que limitassem seus ataques ao seu governo. Estiveram próximos da derrubada do governo durante a crise do chamado “mensalão”. Mas Fernando Henrique foi, como sempre, prepotente, subestimando o adversário, “Não vamos derrubá-lo. Vamos somente sangrá-lo”. E o iniciador do mensalão que era simplesmente o presidente do PSDB? Não só o mantiveram na presidencia mas ainda por cima fizeram uma sessão do senado de homenagem ao ilustre senador mineiro de ilustre família..E você crê realmente que a origem familiar ou de classe social não conta? O filho de Lula é acusado, e todo mundo sabe disto, de haver sido protegido por uma empresa privada, Escândalo. O filho de Fernando Henrique era marido com bens comuns, portanto dono também, do Banco Nacional que confessou ter criado 2.000 contas falsas (conhece crime maior que este nalgum banco? Digo, crime reconhecido) para beneficiar os acionistas do Banco que não sabiam (imagine isto na imprensa impiedosa com os que pretende derrubar) de onde vinham estes excedentes de benefícios. São bilhões de reais que estavam em jogo. O governo investiu alguns bilhões de reais (fala-se até em 14 bilhões de ajuda ao Banco presidido pela nora do presidente) e terminou negociando-o com o UNIBANCO e vendendo-o por 4 bilhões de reais... Você sabe disto. Tudo é público e “legal”. Bom: e quanto às privatizações: existe algum escândalo no governo Lula que se aproxime das comissões obtidas em uma só delas? Por favor meu caro amigo: Sua percepção dos acontecimentos está demasiado comandada pela imprensa. O PT poderá vir a ser um centro de corrupção à altura do nosso sistema mas são uns simples aprendizes. Não há um só escândalo do governo Lula que se aproxime de longe do menor escândalo do governo do Fernando Henrique. Não se adquire uma tecnologia tão sofisticada em 8 anos.
Neste sentido é impressionante ver como esta imprensa disposta a jogar tudo contra Dilma, pela honestidade da qual ponho meu braço direito 9 pois a conheço muito bem ) esta imprensa não pôde levantar nada contra ela. E o caso de sua secretária geral, francamente, é uma brincadeira de criança diante do que sabemos que ocorrem nos altos escalões do serviço público. A acusação máxima que conseguiram seria a possível cooperação dela com a comissão ou remuneração de 150.000 reais! Por uma intermediação que fracassou... Francamente, a Folha de São Paulo ganhou o premio de jornalismo do ano pela reportagem que descobriu este “tremendo” rombo do Estado... E ela caiu do governo por não ter apresentado seu cadastro... Francamente não sei como se pode ter criado na cabeça das pessoas de que se estava diante do maior escândalo da história do país.
Não quero defender estas pessoas que por acaso estão envolvidas em negócios escusos. Mas nunca me guiarei por esta imprensa e esta opinião pública hipócrita para determinar os verdadeiros problemas do Brasil. Por sorte a maioria de nossos eleitores não acredita nestas coisas. Eles são bem mais sábios que os chamados “formadores de opinião”.
vamos parar por aqui pois estão me desviando de outras questões que apesar de não estarem na ordem do dia desta opinião pública são muito mais importantes para o país. Obrigado pelas suas opiniões e pelo seu interesse. Meus livros publicados em português estão quase todos esgotados. Na verdade o único que ainda tem exemplares é o último sobre Do Terror à Esperança: Auge e Decadência do Neoliberalismo., Idéias e Letras, Aparecida, S.P. Você encontrará referências a eles e vários artigos e livros que poderá baixar no web site da Cátedra UNESCO/UNU que eu dirijo: www.reggen.org.br., além evidentemente do meu blog que é contudo muito insuficiente.

Abraços

Theotonio Dos Santos
23/02/2011.


De: Orlando Lima [mailto:guaxinindourado@hotmail.com]
Enviada em: terça-feira, 22 de fevereiro de 2011 19:09
Para: thdossantos@terra.com.br
Assunto: RE: RES: Carta aberta a Fernando Henrique Cardoso

Prezado Professor Theotonio,

Muito obrigado pela sua gentileza em responder a minha mensagem. Visitei o seu blog e a ele voltarei outras vezes pois contém assuntos interessantes. Busquei, via internet, localizar alguns dos seus livros para adquiri-los e, infelizmente não obtive êxito. Mesmo nos sebos não consegui localizá-los. Ficaria reiteradamente agradecido se o senhor puder me indicar algum local onde possa adquiri-los.
A sua resposta contemplou a minha dúvida com relação a ocorrências no campo da Economia. No que diz respeito a dívida pública dos governos FHC e Lula, embora concorde que FHC aumentou a dívida em 15 vezes o valor por ele herdado do governo anterior, enquanto que o governo Lula apenas duplicou o valor recebido de FHC, não podemos esquecer que o valor do aumento da dívida criada pelos dois governos foi bem próximo: cerca de 800 bilhões de reais. Assim, em termos de aumento da dívida pública, se equivaleram.
No que pese expressar o meu total acatamento à sua discordância quanto ao nível de corrupção no governo Lula, permita-me fazer uma pequena ponderação. Valendo-me ainda do que foi publicado na imprensa durante o período dos dois governos quanto ao quesito corrupção, embora não tenha feito um levantamento estatístico, acredito estar fora de dúvida que no governo Lula os jornais impressos e televisivos trouxeram a público maior número de casos ensejadores de possíveis atos de corrupção do que no governo FHC. Ressalte-se ainda a conduta aloprada do nosso ex-presidente em, ao ter programas do seu governo com várias irregularidades encontradas pelo TCU colocados sob suspeita e com a suspensão do seu andamento recomenndada, resolver dar carão nos ministros do TCU e até propor a necessidade de regramento jurídico limitando o alcance das ações daquele Órgão fiscalizador. No entendimento do ilustre ex-presidente, e o disse claramente em rede de televisão, o governo não pode ficar paralizado por uma decisão do TCU ou pela decisão de um juiz. Se é verdade, por um lado, que no governo Lula não tivemos corrupção próxima de um bilhão de reais, é igualmente verdade, por outro lado, que no seu governo tivemos numericamente muito mais casos denunciados como corrupção. Basta lembrar o balcão de favores e liberação de verbas em que se transformou o nosso Parlamento diante do Executivo, ao longo das legislaturas.
Não creio que nos últiimos 30 anos da nossa República o tema corrupção tenha se tornado um instrumento de luta da classe dominante contra os setores populares que ascendem a posições de poder e que não sabem manejar bem os mecanismos de corrupção tornando-se facilmente fonte de escândalo por pequenas quantias tentando muitas vezes imitar seus antagonistas das classes dominantes que manejam esses recursos colossais sem uma só acusação de corrupção. Ocorreu exatamente o contrário. A cognominada elite capitalista governou o país até 2002. Os partidos populares, pelo menos nos últimos 20 anos, fizeram campanha declarando à exaustão que o governo capitalista era corrupto e que a corrupção estava entranhada em vários setores do governo. Basta que se verifique o número de CPIs e denúncias públicas feitas pelos partidos populares, ou pequenos partidos. Realmente acredito que toda a história política brasileira está, infelizmente, tisnada de vários atos de corrupção. Em 2003, pela primeira vez na História do Brasil, os partidos populares elegeram um presidente. É de se imaginar que, considerando os vários anos em que o partido político do agora presidente fez campanha e denúncias contra a corrupção, estaria mais do que conhecedor de todas as veredas e engodos que levam a tal procedimento na política brasileira. Mesmo se isso não fosse verdade, o novo presidente, por dever de ofício e pelas promessas de campanha haveria de se cercar das melhores autoridades técnicas e administrativas, no sentido de evitar a continuidade da corrupção no Brasil. Ao contrário do que se esperva, a corrupção espraiou-se em todos os sentidos e atingiu todos os partidos, especialmente o do presidente recém-eleito. Uma pena!
Finalmente, não acredito que criticar ou denunciar atos condenáveis das pessoas signifique persegui-las. Todos nós vivemos, ou deveríamos viver, sujeitos às devidas punições legais aplicáveis a cada um dos atos ilegais que praticarmos. Esta parece ser, salvo erro ou engano, a forma adequada pela qual deve se reger qualquer sociedade, qualquer governo que deseje viver num Estado Democrático de Direito. Lamentavelmente, admito, os brasileiros ainda estão muito longe de alcançarem esta condição sócio-política.

Atenciosamente,

Orlando Lima


Subject: RES: Carta aberta a Fernando Henrique Cardoso
Date: Tue, 15 Feb 2011 21:58:32 -0200

ATENÇÃO: ISTO É MATÉRIA PARA O MEU BLOG. SOB O TÍTULO

ESCLARECIMENTOS SOBE A CARTA A FERNANDO HENRIQUE CARDOSO

Prezado Orlando Lima

Muito interessante e procedente seu e-mail e suas questões que vou responder de maneira sumária, recomendando que se você tem interesse em aprofundar nas mesmas que recorra aos meus livros ou artigos sobre o tema cujas referências pode encontrar no meu blog ( theotoniodossantos.blogspot.com) e no site da cátedra UNESCO-Universidade da Nações Unidas (UNU) que dirijo ( www.reggen.org.br). Você pode também abrir meu nome na wikipedia ou no google para obter mais informação. Vamos às questões:

Entre 1990 e 1994 chegava ao auge uma inflação mundial combinada com baixa de crescimento (conhecida como stagflação) cuja origem principal foi a crise do dólar em 1971 quando os Estados Unidos abandonou a convertibilidade do dólar, assegurada pelas resoluções do encontro de Bretton Woods em 1944 que estabeleceu uma ordem econômica mundial apoiada no valor fixo do dólar e da libra (que saiu fora na década de 50), na criação de um fundo monetário internacional, num órgão de ajuste de comércio (o GATT) e num Banco Mundial voltado para o apoio da reconstrução de pós-guerra e para o desenvolvimento. O abandono da convertibilidade do dólar era o começo de um aumento de preços mundiais que teve no petróleo seu ponto de inflexão em 1973 com uma elevação de +/- 8 vezes do preço do barril e a criação de um fantástico excedente financeiro conhecido como os petrodólares. Estes petrodólares foram “reciclados” pelos bancos privados originando um endividamento internacional colossal comandado por um sistema financeiro colossal que veio se desenvolvendo de lá para cá de maneira arrazadora. Se deseja conhecer meu ponto de vista sobre estes fatos recomendo-o, entre outros trabalhos meus, o livro Do Terror à Esperança- Auge e Decadência do Neoliberalismo. Idéias & Letras, Aparecida, S.P. . O Brasil, como os demais paises do Terceiro Mundo e uma parte importante do bloco soviético se converteram em grandes devedores internacionais, fato que se tornou extremamente grave nos anos de 1980 quando a taxa de juro destes empréstimos foi elevada bruscamente e unilateralmente (como o abandono da convertibilidade do dólar) pelo governo norte americano. No final da década as dívidas se mostravam impagáveis com a generalização de moratórias ou simples suspensão de pagamentos. Neste momento se criou o Plano Brady que iniciou a negociação destas dívidas pelos Estados Unidos que as assumiu transformando-as em bônus lançados pelos Estados Unidos e vendidos no mercado mundial, e perdoou parte delas para viabilizar o funcionamento da economia mundial. Neste momento todos ou quase todos (não me lembro de exceção neste momento) reorganizaram suas dívidas e eliminaram o fator inflacionário mundial que pesava sobre suas economias, levando-as à hiperinflação. Se você quer ver um retrato disto tome o gráfico organizado pela CEPAL sobre a queda das inflações no início da década de 1990:

Queda da inflação na América Latina – La hora de la Igualdad, Cepal 2010, p. 54 - OK



“A queda da inflação na América latina foi generalizada. Aliás, todos os 44 países do mundo que tinham hiperinflação nos anos 1990 a liquidaram em poucos anos. O plano real foi apenas um dos mecanismos.”


Diga-se de passagem, que eu já havia demonstrado isto desde 1994 sem nenhuma repercussão no Brasil, dominado por um partido da imprensa que exerce um monopólio incrível sobre a informação e sua análise no país. Venho apresentando junto com vários colegas dados sobre a inflação e sobretudo a deflação desde aquela época sem conseguir que a ciência econômica brasileira se detenha um minuto sobre o tema. Portanto não é absurdo que você não tenha se informado sobre isto.

As taxas de inflação baixaram em todo o mundo para próximo do zero enquanto o Brasil manteve perto de 10% anual (chegando a 12,5% em 2002). Tenho um gráfico sobre isto no meu livro citado. Você há de convir que entre 1% ou 2% ou mesmo 3% ou 4% e 10% (éramos um dos poucos países que chegavam tão alto no mundo) temos uma diferença de 5 a 3 vezes mais que a média mundial que estava extremamente baixa depois de 1994. A razão é simples: levamos ao paroxismo a idéia de que é necessário subir a taxa de juros para baixar a inflação... Durante o governo FHC chegamos a pagar 48% de juros por ano. O maior teórico neoliberal sobre o setor financeiro ( o premio nobel Alain) considera que a taxa de juros tem que ser bastante inferior à taxa de crescimento de um país pois se o juros iguala a taxa de crescimento ele anula o crescimento pois passa a ser simplesmente uma transferência do setor produtivo para o setor financeiro. Ao contrário do que “eles” dizem, a alta taxa de juros é um dos principais fatores inflacionários no país pois além de refletir sobre o custo dos produtos que inclue necessariamente os juros pagos obrigando a aumentar a taxa de lucro e consequentemente os preços, o pagamento de juros tão altos pelo estado cria um gasto público colossal, inflacionário e inútil. Tanto é assim que chegamos a pagar em juros a um grupo de cerca de 30.000 brasileiros um monto de juros que corresponde a 1/3 do gasto público. Você leu bem isto: de cada 3 reais que gasta o estado brasileiro, 1 real se destina a pagar juros. E não creia que isto tem nada a ver com o mercado pois um pais que tem superávit primário há várias anos ( isto é, gasta menos do que arrecada, com o fim de dispor de dinheiro para pagar os juros...) não necessita de dinheiro emprestado. As justificativas para pagar juros alto é diminuir a inflação e atrair capital estrangeiro para melhorar a balança de pagamentos com o exterior... Isto é pagamos os juros mais altos do mundo para satisfazer um grupo de inúteis baseados numa teoria econômica contestada por todos os teóricos sérios da economia e todos os dados econômicos...

Você há de convir que passar de 60 a 850 é um aumento de cerca de 15 vezes! E um aumento de 800 para 1.600 é um aumento de 2 vezes. Não concordo com a política do banco Central no governo Lula e o critiquei várias vezes. Mas pelo menos ele conseguiu fazer cair a taxa de juros para menos de 2 dígitos DIMINUINDO NECESSÁRIAMENTE A TAXA DE INFLAÇÃO. O Banco Central do Brasil conseguiu cometer o desafio a toda a teoria econômica, inclusive as mais reacionárias aumentando da taxa de juros no meio de uma crise mundial e criando um grave problema de gasto público numa situação em que o gasto público tinha que aumentar para destinar-se à produção. Isto é uma temeridade... uma irresponsabilidade....

Não concordo com você de que o governo Lula foi o mais corrupto do Brasil. Não tivemos nenhum caso de corrupção do governo próximo de um bilhão de reais. Nos governos anteriores estes escândalos abundavam apesar do interesse da imprensa de oculta-los, como conseguiu fazê-lo sobretudo no programa de apoio aos bancos em quebra, entre os quais se incluía o Banco Nacional da nora do Presidente da República e portanto do seus filho já que não eram casados com separação de bens. Não gosto de aprofundar este tema da chamada corrupção porque ele tem sido um instrumento de luta da classe dominante contra os setores populares que ascendem a posições de poder e que não sabem manejar bem os mecanismos de corrupção tornando-se facilmente fonte de escândalos por baixíssimas quantias tentando muitas vezes imitar seus antagonistas das classes dominantes que manejam estes recursos colossais sem uma só acusação de corrupção. Nesta eu não entro também porque não tenho gosto de estar perseguindo pessoas num sistema econômico basicamente corrupto contra o qual luto, como sistema e não como casos individuais.

Espero ter respondido pelo menos em parte suas inquietações e de muitos outros leitores. Houve um economista que me recomendou até leituras de imprensa não especializada como contribuição ao meu conhecimento. Ele não tinha idéia de que publiquei mais de 40 livros e centenas de artigos em 19 línguas e mais de 40 países que ele, sendo economista, desconhece. Coisas da vida e do nosso ambiente acadêmico...

Atentamente

Theotonio Dos Santos

NOTA: Vou publicar esta resposta no meu blog.


De: Orlando Lima
Enviada em: terça-feira, 15 de fevereiro de 2011 18:32
Para: thdossantos@terra.com.br
Assunto: Carta aberta a Fernando Henrique Cardoso


Prezado Professor Theotônio,

Nesta data li texto com o título supra citado, indicado como de sua autoria, em resposta à carta aberta que o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso houvera dirigido ao Presidente Lula.
Se efetivamente o texto for de sua autoria, máximo respeito ao ponto de vista ali exposto, algumas questões aguçaram a minha curiosidade enquanto cidadão, o que leva ao encaminhamento da presente mensagem, solicitando a sua ajuda, se possível, no esclarecimento das dúvidas levantadas.
Entendo ser oportuno esclarecer-lhe que a minha mensagem não contém nenhum interesse político, de vez que, mesmo não considerando-me "dono da verdade", muito pelo contrário, considero, salvo melhor juízo, o governo do presidente Fernando Henrique como o pior governo da História da Repúbllica. Infelizmente creio que o Brasil não se recuperará dos prejuízos causados pelo governo FHC mesmo nos próximos 300 anos. Quanto ao governo do presidente Lula, por tudo que se publicou sobre ele, e ainda se publica, entendo ter sido o governo mais corrupto desde que o Brasil foi descoberto pelos portugueses.
Isto posto, vamos às questões para as quais gostaria do seu esclarecimento.
1 - O senhor afirmou que até 1993 os países passavam por uma hiperinflação. A partir de 1994, em rzão de um movimento planetários todos os países baixaram a sua inflação para menos de 10%. Quais as razões econômicas e políticas que levaram todos os países a, em um curto espaço de tempo, baixar a sua inflação?
2 - O senhor afirmou que o governo FHC manteve uma inflação das mais altas do mundo, próxima de 10%. Mas, se todos os países experimentaram também uma inflação próxima de 10% a inflação brasileira não estava destoante em comparação com a inflação mundial. Está correto o meu raciocínio?
3 - O senhor considerou ruim que o governo FHC aumentasse a dívida pública do Brasil de 60 bilhões de reais para 850 blhões de reais. Sou absolutamente neófito em matéria de economia mas também considero muito alto o valor da dívida pública brasileira passado ao presidente Lula. Entretanto, ao que se publicou, a dívida pública do Brasil no final do governo Lula ascendeu ao montante de 1 trilhão e 600 bilhões de reais. Neste quesito, os governos FHC e Lula se equivaleram. Ou não?
Certo da prestimosa atenção que o senhor dispensará à presente mensagem, despeço-me

Atenciosamente,

Orlando Lima

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

Site sobre Ruy Mauro Marini

Parece que não mantivemos a indicação do site de Ruy Mauro Marini publicado no México. Para os que não acessaram ainda a este site enviamos seu endereço em seguida:

http://www.marini-escritos.unam.mx/

publicamos em seguida a minha apresentação de Ruy Mauro Marini após a sua morte:



RUY MAURO MARINI:


UM PENSADOR LATINOAMERICANO

Theotonio dos Santos


O pensamento social latinoamericano alcançou, particularmente nas quatros últimas décadas, um alto reconhecimento internacional e influiu profundamente na metodologia e na temática das Ciências Sociais contemporâneas. Mais ainda,: alguns destes pensadores, independente de sua origem disciplinar (economistas, sociólogos, cientistas políticos, historiadores ou antropólogos), representam referências fundamentais nas lutas sociais de nosso tempo.
Entre todos, Ruy Mauro Marini ocupa uma posição privilegiada. Sua obra teórica é profunda e clara e antecipou grande parte dos campos de pesquisa e debate das Ciências Sociais contemporâneas. Ainda muito jovem, Ruy Mauro levantou na Organização Revolucionária Marxista Política Operária (POLOP) que fundamos um conjunto de militantes brasileiros de várias origens em 1961, a polêmica sobre as tendências bonapartistas na política brasileira e identificou a relação entre o populismo e as tendências autoritárias em que deveria desembocar o Estado Brasileiro (1).
Dentro da tradição analítica da POLOP, da qual foi um dos principais fundadores, já colocava também a inevitável capitulação da classe dominante brasileira, diante das tarefas democráticas e nacionalistas que poderiam viabilizar um desnvolvimento nacional autônomo do pais. Sua contribuição se tornou mais original quando, após o golpe de Estado de 1964, definiu a importância deste para a formação do capital financeiro e sua eminente hegemonia sobre a economia brasileira (2). Nesta época forjou o conceito de subimperialismo. Através dele, mostrava que o nascente capital financeiro brasileiro, surgido no bojo de uma forte dependência do capital internacional, teria de enfrentar a contradição entre sua tendência expansionista - na busca de novos mercados para seus investimentos e seus produtos - e sua condição subordinada e dependente do capital internacional (3).
Em 1967, o conceito de subimperialismo, aliado à concepção da nova divisão internacional do trabalho em formação, já apontava para o surgimento dos Novos Países Industriais (os NICs) entre os quais vieram a destacar-se posteriormente os tigres asiáticos. Há pouco, James O’Connor me escrevia numa carta, com certo humor, que o conceito de semi-periferia de Immanuel Wallerstein correspondia de fato àquilo “que nós chamávamos subimperialismo”. Esta é uma das marcas de Ruy Mauro Marini no pensamento social contemporâneo (4).
Mas sua contribuição alcançou um nível ainda mais alto com o livro A Dialética da Dependência (5). Nele, o cientista social assume com rigor a tarefa de explicar as relações econômicas desiguais entre os produtores apoiados na alta tecnologia e as economias especializadas em atividades secundárias. Ele vai encontrar na superexploração do trabalho o fundamento das relações desiguais na economia mundial. Posteriormente, ao dirigir um Centro de Pesquisas sobre o Movimento Operário, no México, aprofundou estas análises com especial ênfase na reestruturação da indústria automobilística mundial e particularmente latinoamericana (“Análisis de los mecanismos de protección al salario en la esfera de la producción”, Secretaria do Trabalho, México).
Nos últimos anos de vida, Ruy Mauro lançou fortes luzes sobre a reestruturação da economia internacional e a inserção da América Latina (Democracia e Integração na América Latina, Ed., São Paulo) na mesma (aprofundando o enfoque iniciado na segunda metade dos anos 60) e realizou um levantamento amplo e profundo do pensamento social latinoamericano dos anos de 1920 aos nossos dias (6). Sua morte veio colhê-lo na fase final da preparação de uma Antologia do Pensamento Social Latino americano do século XX que organizava para a UNESCO com a minha colaboração.
Nestas tarefas e nestas andanças, nas quais estivemos tantas vezes juntos a ponto de sermos identificados (ele, Vânia Bambirra e eu) como uma corrente da chamada “Teoria da Dependência”, Ruy Mauro Marini formou uma plêiade de discípulos magníficos que se pode ver nos quatro volumes que publicou sobre o pensamento social latino-americano pela Editora Caballito de México. Sua obra terá necessariamente continuidade e se aprofundará sua influência depois de sua morte, como é atestado no presente livro
.
É lamentável que sua volta do exílio tenha sido precedida pela crítica de Fernando Henrique Cardoso e José Serra num artigo infeliz dedicado à crítica de sua Dialética Dependência. Àqueles que identificaram, como RMM, Vânia Bambirra, André Gunder Frank e eu, já em 1964, a dinâmica do capitalismo mundial e brasileiro (mostrando sua entrada numa nova fase caracterizada pela hegemonia crescente do capital financeiro, que encerrava tendências expansionistas e levava a um papel crescente do Estado junto ao capital privado nacional e internacional) se procurou desqualificar como “estancacionistas”. Ruy Mauro Marini foi o oposto disto e, antes que Fernando Henrique Cardoso (ou qualquer um de nós) foi o primeiro a identificar o caráter dinâmico do capitalismo dependente. Só que este dinamismo não era visto no sentido do equilíbrio macro econômico, das liberdades públicas e do bem estar social como nos querem impingir hoje em dia Fernando Henrique e outros.

Sua resposta àquele artigo, só divulgada no Brasil muito recentemente, tem plena vigência (7). Não podíamos esperar do triunfo circunstancial dos autores daquelas críticas mal intencionadas um Brasil melhor, mais democrático e mais justo. Pelo contrário: o que vimos são as densas nuvens de um enorme desequilíbrio cambial e fiscal, de uma crescente ação do Estado a favor do grande capital financeiro nacional e sobre tudo internacional, de uma crescente superexploração da mão de obra assalariada (8) e os evidentes sinais de um autoritarismo tecnocrático evidenciado na sucessão de “Medidas Provisórias” que prescindem do parlamento. Infelizmente, a recente derrota eleitoral desta corrente no plano nacional não deu origem ainda a uma mudança radical desta situação sócio-econômica.

A morte de Ruy Mauro Marini deu-se no bojo desta nova fase da luta de nosso povo. Ele que foi militante clandestino, prisioneiro torturado do CENIMAR, exilado em tantas terras, militante latino americano e internacional da luta revolucionária de nossos povos, por sua intransigência revolucionária, só podia ser uma incômoda presença no nosso país. Nele a maior parte da intelectualidade colocou-se a serviço do “establishment” oligárquico e entreguista, tornando-se os arautos disfarçados da pior distribuição de renda do planeta, dos assassinos de índios, crianças de rua e sem terras, além de se converterem nos campeões do analfabetismo e da evasão escolar, da maior taxa de acidentes do trabalho de todo o mundo, etc., etc.

Si queriam intelectuais para ajudar a enfeitar este quadro miserável com um palavreado pretensamente científico não podiam definitivamente contar com Ruy Mauro Marini.






NOTAS


(1) Refletindo os debates internos da POLOP, Ruy Mauro já havia proposto um exame do bonapartismo como categoria para compreender o caráter do governo Goulart. Seu artigo de 1965 em Foro Internacional refletia este enfoque “Contradicciones y conflictos en el Brasil contemporâneo”, Foro Internacional (México), abril-junho 1965.

(2) “Brazilian Interdependence and Imperialist Integration”, Monthly Review (N. York), dezembro de 1965; “La interdependencia brasileña y la integracion imperialista”, Monthly Review en Castellano (Buenos Aires), 1966.

(3) O artigo de 1966 já anunciava este conceito que foi retomado e reelaborado no seu artigo de 1972 sobre o subimperialismo, também publicado na Monthly Review. Eu debatí com Ruy Mauro sobre a viabilidade do subimperialismo brasileiro pondo ênfase nas suas contradições internas. Contudo, sempre concordei que a tendência ao subimperialismo seria uma constante na evolução do Brasil apesar de seu caráter contraditório.

(4) Estas teses encontraram forma mais elaborada nos livros: Subdesarrollo y Revolución, Siglo XXI, México, 1985, 12º edição (1º edição 1969) e Il subimperialismo brasiliano, Einaldi, Turim, 1974.

(5) Ver (1973), várias edições.

(6) Ruy Mauro dirigiu um amplo seminário no Centro de Estudos Latinoamericanos de la UNAM (CELA) sobre o pensamento social latinoamericano que deu origem a uma coleção de 4 livros de análise sobre o tema, publicada pela Editorial Caballito, no México, e 3 volumes de Antologia de pensadores da região publicados pela Editora da UNAM.

(7) A sua resposta polêmica a Fernando Henrique Cardoso não foi publicada no Brasil e sim em espanhol: “Las Razones del Neo-desarrollismo, respuesta a F.H. Cardoso y J. Serra”, Revista Mexicana de Sociología, México, Número especial, 1978 (este mesmo número publica o antigo de Cardoso). Sobre a polêmica com Cardoso, veja-se meu artigo: “Os Fundamentos Teóricos do Governo Fernando Henrique Cardoso”, Ciências & Letras, Porto Alegre, Agosto de 1996, Nº 17, pp. 121 a 142, também publicado na revisa Política e Administração da FESP-R.j., 1965. Uma tradução ao português do artigo de Ruy Mauro Marini só foi publicada na antologia de textos editada por Emir Sader pela editora Vozes sob o título de Teoria da Dependência.

(8) A imprtância destas análises no plano internacional pode-se ver na divulgação ampla dos artigos citados: “Brazilian Sub-Imperalism”, Monthly Review (N. York), janeiro 1972; “Subimperialismo del Brasil”, Monthly Review (Buenos Aires), 1-2, maio 1973. “Subdesarrollo y revolución en América Latina”, Tricontinental (Havana, com edições também em francês e inglês), 1968; Monthly Review - Selecciones en Castellano (Santiago, Ch.), setembro 1969.





Bibliografia:



A - Principais Livros de Ruy Mauro Marini:



Subdesarrollo y revolución, Siglo XXI, México, 1985, 12º edição (1º edição, 1969).

Sous-développement et révolution en Amérique latine, Maspero, Paris, 1972.

Il subimperialismo brasiliano, Einaldi, Turim, 1974.

Subdesenvolvimento e revolução, Iniciativas Editoriais, Lisboa, 1975.

Dialéctica de la dependencia, ERA, México, 1990, 10º edição (1º edição, 1973); Dialectique de la dépendance, em Critiques de l’économie politique, Maspero, Paris, 1973; Dialektik der Abhangigkeit, em Diezer Senghaas (ed.), Peripherer Kapitalismus. Analysen uber Abhangigkeit und Unterentwicklung, Suhrkamp Verlag, Francfort, 1974; Dialéctica da dependencia, Centelha, Coimbra (Port.) 1976; Dialectica della dipendenza, em Franco Angeli, Milão, 1979.

El reformismo y la contrarrevolución. Estudios sobre Chile, ERA, México, 1976.

Análisis de los mecanismos de protección al salario en la esfera de la producción, Secretaria do Trabalho, México, 1983.

Democracia e Integração na América Latina, Ed., São Paulo, 1990.



B - Principais Artigos:


“Brazilian Sub-Imperialism”, Monthly Review (N.York), janeiro 1972; “Subimperialismo del Brasil”, Monthly Review (Buenos Aires), 1-2, Maio 1973.

“Subdesarrollo y revolución en América Latina”, Tricontinental (Havana, com edições também em francês e inglês), 1968; Monthly Review - Selecciones en Castellano (Santiago, Ch.), setembro 1969.

“La dialéctica del desarrollo capitalista en Brasil”, Cuadernos Americanos (México), XXV-5, junho de 1966.

“Brazilian Interdependence and Imperialist Integration”, Monthly Review (N.York), dezembro 1965; “La interdependencia brasileña y la integracion imperialista”, Monthly Review en Castellano (Buenos Aires), 1966.

“Contradicciones y conflictos en el Brasil contemporaneo”, Foro Internacional (México), abril-junho 1965.

“Las Razones del Neo-desarrollismo, respuesta a F.H. Cardoso y I. Serra”, Revista Mexicana de Sociología, México, Número especial, 1978 (este mesmo número publica o artigo de Cardoso).


segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Carta aberta a Fernando Henrique Cardoso

Meu caro Fernando,


Vejo-me na obrigação de responder a carta aberta que você dirigiu ao Lula, em nome de uma velha polêmica que você e o José Serra iniciaram em 1978 contra o Rui Mauro Marini, eu, André Gunder Frank e Vânia Bambirra, rompendo com um esforço teórico comum que iniciamos no Chile na segunda metade dos nos 1960. A discussão agora não é entre os cientistas sociais e sim a partir de uma experiência política que reflete comtudo este debate teórico. Esta carta assiada por você como ex-presidente é uma defesa muito frágil teórica e politicamente de sua gestão. Quem a lê não pode compreender porque você saiu do governo com 23% de aprovação enquanto Lula deixa o seu governo com 96% de aprovação. Já discutimos em várias oportunidades os mitos que se criaram em torno dos chamados êxitos do seu governo. Já no seu governo vários estudiosos discutimos, já no começo do seu governo, o inevitável caminho de seu fracasso junto à maioria da população. Pois as premissas teóricas em que baseava sua ação política eram profundamente equivocadas e contraditórias com os interesses da maioria da população. (Se os leitores têm interesse de conhecer o debate sobre estas bases teóricas lhe recomendo meu livro já esgotado: Teoria da Dependencia: Balanço e Perspectivas, Editora Civilização Brasileira, Rio, 2000).

Contudo nesta oportunidade me cabe concentrar-me nos mitos criados em torno do seu governo, os quais você repete exaustivamente nesta carta aberta.

O primeiro mito é de que seu governo foi um êxito econômico a partir do fortalecimento do real e que o governo Lula estaria apoiado neste êxito alcançando assim resultados positivos que não quer compartir com você... Em primeiro lugar vamos desmitificar a afirmação de que foi o plano real que acabou com a inflação. Os dados mostram que até 1993 a economia mundial vivia uma hiperinflação na qual todas as economias apresentavam inflações superiores a 10%. A partir de 1994, TODAS AS ECONOMIAS DO MUNDO APRESENTARAM UMA QUEDA DA INFLAÇÃO PARA MENOS DE 10%. Claro que em cada pais apareceram os “gênios” locais que se apresentaram como os autores desta queda. Mas isto é falso: tratava-se de um movimento planetário. 

No caso brasileiro, a nossa inflação girou, durante todo seu governo, próxima dos 10% mais altos. TIVEMOS NO SEU GOVERNO UMA DAS MAIS ALTAS INFLAÇÕES DO MUNDO. E aqui chegamos no outro mito incrível. Segundo você e seus seguidores (e até setores de oposição ao seu governo que acreditam neste mito) sua política econômica assegurou a transformação do real numa moeda forte. Ora Fernando, sejamos cordatos: chamar uma moeda que começou em 1994 valendo 0,85 centavos por dólar e mantendo um valor falso até 1998, quando o próprio FMI exigia uma desvalorização de pelo menos uns 40% e o seu ministro da economia recusou-se a realizá-la “pelo menos até as eleições”, indicando assim a época em que esta desvalorização viria e quando os capitais estrangeiros deveriam sair do país antes de sua desvalorização, O fato é que quando você flexibilizou o cambio o real se desvalorizou chegando até a 4,00 reais por dólar. E não venha por a culpa da “ameaça petista” pois esta desvalorização ocorreu muito antes da “ameaça Lula”. ORA, UMA MOEDA QUE SE DESVALORIZA 4 VEZES EM 8 ANOS PODE SER CONSIDERADA UMA MOEDA FORTE? Em que manual de economia? Que economista respeitável sustenta esta tese?

Conclusões: O plano real não derrubou a inflação e sim uma deflação mundial que fez cair as inflações no mundo inteiro. A inflação brasileira continuou sendo uma das maiores do mundo durante o seu governo. O real foi uma moeda drasticamente debilitada. Isto é evidente: quando nossa inflação esteve acima da inflação mundial por vários anos, nossa moeda tinha que ser altamente desvalorizada. De maneira suicida ela foi mantida artificialmente com um alto valor que levou à crise brutal de 1999.

Segundo mito; Segundo você, o seu governo foi um exemplo de rigor fiscal. Meu Deus: um governo que elevou a dívida pública do Brasil de uns 60 bilhões de reais em 1994 para mais de 850 bilhões de dólares quando entregou o governo ao Lula, oito anos depois, é um exemplo de rigor fiscal? Gostaria de saber que economista poderia sustentar esta tese. Isto é um dos casos mais sérios de irresponsabilidade fiscal em toda a história da humanidade.

E não adianta atribuir este endividamento colossal aos chamados “esqueletos” das dívidas dos estados, como o fez seu ministro de economia burlando a boa fé daqueles que preferiam não enfrentar a triste realidade de seu governo. UM GOVERNO QUE CHEGOU A PAGAR 50% AO ANO DE JUROS POR SEUS TÍTULOS, PARA EM SEGUIDA DEPOSITAR OS INVESTIMENTOS VINDOS DO EXTERIOR EM MOEDA FORTE A JUROS NORMAIS DE 3 A 4%, NÃO PODE FUGIR DO FATO DE QUE CRIOU UMA DÍVIDA COLOSSAL SÓ PARA ATRAIR CAPITAIS DO EXTERIOR PARA COBRIR OS DÉFICITS COMERCIAIS COLOSSAIS GERADOS POR UMA MOEDA SOBREVALORIZADA QUE IMPEDIA A EXPORTAÇÃO, AGRAVADA AINDA MAIS PELOS JUROS ABSURDOS QUE PAGAVA PARA COBRIR O DÉFICIT QUE GERAVA. Este nível de irresponsabilidade cambial se transforma em irresponsabilidade fiscal que o povo brasileiro pagou sob a forma de uma queda da renda de cada brasileiro pobre. Nem falar da brutal concentração de renda que esta política agravou dráticamente neste pais da maior concentração de renda no mundo. VERGONHA FERNANDO. MUITA VERGONHA. Baixa a cabeça e entenda porque nem seus companheiros de partido querem se identifica com o seu governo...te obrigando a sair sozinho nesta tarefa insana.

Terceiro mito - Segundo você, o Brasil tinha dificuldade de pagar sua dívida externa por causa da ameaça de um caos econômico que se esperava do governo Lula. Fernando, não brinca com a compreensão das pessoas. Em 1999 o Brasil tinha chegado à drástica situação de ter perdido TODAS AS SUAS DIVISAS. Você teve que pedir ajuda ao seu amigo Clinton que colocou à sua disposição ns 20 bilhões de dólares do tesouro dos Estados Unidos e mais uns 25 BILHÕES DE DÓLARES DO FMI, Banco Mundial e BID. Tudo isto sem nenhuma garantia.

Esperava-se aumentar as exportações do pais para gerar divisas para pagar esta dívida. O fracasso do setor exportador brasileiro mesmo com a espetacular desvalorização do real não permitiu juntar nenhum recurso em dólar para pagar a dívida. Não tem nada a ver com a ameaça de Lula. A ameaça de Lula existiu exatamente em conseqüência deste fracasso colossal de sua política macro-econômica. Sua política externa submissa aos interesses norte-americanos, apesar de algumas declarações críticas, ligava nossas exportações a uma economia decadente e um mercado já copado. A recusa dos seus neoliberais de promover uma política industrial na qual o Estado apoiava e orientava nossas exportações. A loucura do endividamento interno colossal. A impossibilidade de realizar inversões públicas apesar dos enormes recursos obtidos com a venda de uns 100 bilhões de dólares de empresas brasileiras. Os juros mais altos do mundo que inviabilizava e ainda inviabiliza a competitividade de qualquer empresa. Enfim, UM FRACASSO ECONOMICO ROTUNDO que se traduzia nos mais altos índices de risco do mundo, mesmo tratando-se de avaliadoras amigas. Uma dívida sem dinheiro para pagar... Fernando, o Lula não era ameaça de caos. Você era o caos. E o povo brasileiro correu tranquilamente o risco de eleger um torneiro mecânico e um partido de agitadores, segundo a avaliação de vocês, do que continuar a aventura econômica que você e seu partido criou para este pais. 

Gostaria de destacar a qualidade do seu governo em algum campo mas não posso fazê-lo nem no campo cultural para o qual foi chamado o nosso querido Francisco Weffort (neste então secretário geral do PT) e não criou um só museu, uma só campanha significativa. Que vergonha foi a comemoração dos 500 anos da “descoberta do Brasil”. E no plano educacional onde você não criou uma só universidade e entou em choque com a maioria dos professores universitários sucateados em seus salários e em seu prestígio profissional. Não Fernando, não posso reconhecer nada que não pudesse ser feito por um medíocre presidente.

Lamento muito o destino do Serra. Se ele não ganhar esta eleição vai ficar sem mandato, mas esta é a política. Vocês vão ter que revisar profundamente esta tentativa de encerrar a Era Vargas com a qual se identifica tão fortemente nosso povo. E terão que pensar que o capitalismo dependente que São Paulo construiu não é o que o povo brasileiro quer. E por mais que vocês tenham alcançado o domínio da imprensa brasileira, devido suas alianças internacionais e nacionais, está claro que isto não poderia assegurar ao PSDB um governo querido pelo nosso povo. Vocês vão ficar na nossa história com um episódio de reação contra o vedadeiro progresso que Dilma nos promete aprofundar. Ela nos disse que a luta contra a desigualdade é o verdadeiro fundamento de uma política progressista. E dessa política vocês estão fora. 

Apesar de tudo isto, me dá pena colocar em choque tão radical uma velha amizade. Apesar deste caminho tão equivocado, eu ainda gosto de vocês ( e tenho a melhor recordação de Ruth) mas quero vocês longe do poder no Brasil. Como a grande maioria do povo brasileiro. Poderemos bater um papo inocente em algum congresso internacional se é que vocês algum dia voltarão a freqüentar este mundo dos intelectuais afastados das lides do poder. 

Com a melhor disposição possível mas com amor à verdade, me despeço


Theotonio Dos Santos



thdossantos@terra.com.br, /theotoniodossantos.blogspot.com/

Theotonio Dos Santos é Professor Emérito da Universidade Federal Fluminense, Presidente da Cátedra da UNESCO e da Universidade das Nações Unidas sobre economia global e desenvolvimentos sustentável. Professor visitante nacional sênior da Universidade Federal do Rio de Janeiro. 


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Aos que não tiveram acesso à carta de Fernando Henrique segue abaixo seu conteúdo.

CARTA ABERTA DE FERNANDO HENRIQUE CARDOSO A LULA / PT

SEM MEDO DO PASSADO

Fernando Henrique Cardoso 

O presidente Lula passa por momentos de euforia que o levam a inventar inimigos e enunciar inverdades. Para ganhar sua guerra imaginária, distorce o ocorrido no governo do antecessor, autoglorifica-se na comparação e sugere que se a oposição ganhar será o caos. Por trás dessas bravatas está o personalismo e o fantasma da intolerância: só eu e os meus somos capazes de tanta glória. Houve quem dissesse “o Estado sou eu”. Lula dirá, o Brasil sou eu! Ecos de um autoritarismo mais chegado à direita.

Lamento que Lula se deixe contaminar por impulsos tão toscos e perigosos. Ele possui méritos de sobra para defender a candidatura que queira. Deu passos adiante no que fora plantado por seus antecessores. Para que, então, baixar o nível da política à dissimulação e à mentira?

A estratégia do petismo-lulista é simples: desconstruir o inimigo principal, o PSDB e FHC (muita honra para um pobre marquês…). Por que seríamos o inimigo principal? Porque podemos ganhar as eleições. Como desconstruir o inimigo? 

Negando o que de bom foi feito e apossando-se de tudo que dele herdaram como se deles sempre tivesse sido. Onde está a política mais consciente e benéfica para todos? No ralo. 

Na campanha haverá um mote – o governo do PSDB foi “neoliberal” – e dois alvos principais: a privatização das estatais e a suposta inação na área social. Os dados dizem outra coisa. Mas os dados, ora os dados… O que conta é repetir a versão conveniente. Há três semanas Lula disse que recebeu um governo estagnado, sem plano de desenvolvimento. Esqueceu-se da estabilidade da moeda, da lei de responsabilidade fiscal, da recuperação do BNDES, da modernização da Petrobras, que triplicou a produção depois do fim do monopólio e, premida pela competição e beneficiada pela flexibilidade, chegou à descoberta do pré-sal. 

Esqueceu-se do fortalecimento do Banco do Brasil, capitalizado com mais de R$ 6 bilhões e, junto com a Caixa Econômica, libertados da politicagem e recuperados para a execução de políticas de Estado. 

Esqueceu-se dos investimentos do programa Avança Brasil, que, com menos alarde e mais eficiência que o PAC, permitiu concluir um número maior de obras essenciais ao país. Esqueceu-se dos ganhos que a privatização do sistema Telebrás trouxe para o povo brasileiro, com a democratização do acesso à internet e aos celulares, do fato de que a Vale privatizada paga mais impostos ao governo do que este jamais recebeu em dividendos quando a empresa era estatal, de que a Embraer, hoje orgulho nacional, só pôde dar o salto que deu depois de privatizada, de que essas empresas continuam em mãos brasileiras, gerando empregos e desenvolvimento no país. 

Esqueceu-se de que o país pagou um custo alto por anos de “bravata” do PT e dele próprio. Esqueceu-se de sua responsabilidade e de seu partido pelo temor que tomou conta dos mercados em 2002, quando fomos obrigados a pedir socorro ao FMI – com aval de Lula, diga-se – para que houvesse um colchão de reservas no início do governo seguinte. Esqueceu-se de que foi esse temor que atiçou a inflação e levou seu governo a elevar o superávit primário e os juros às nuvens em 2003, para comprar a confiança dos mercados, mesmo que à custa de tudo que haviam pregado, ele e seu partido, nos anos anteriores. 

Os exemplos são inúmeros para desmontar o espantalho petista sobre o suposto “neoliberalismo” peessedebista. Alguns vêm do próprio campo petista. Vejam o que disse o atual presidente do partido, José Eduardo Dutra, ex-presidente da Petrobras, citado por Adriano Pires, no Brasil Econômico de 13/1/2010.

“Se eu voltar ao parlamento e tiver uma emenda propondo a situação anterior (monopólio), voto contra. Quando foi quebrado o monopólio, a Petrobras produzia 600 mil barris por dia e tinha 6 milhões de barris de reservas. Dez anos depois, produz 1,8 milhão por dia, tem reservas de 13 bilhões. Venceu a realidade, que muitas vezes é bem diferente da idealização que a gente faz dela”. (José Eduardo Dutra) 

O outro alvo da distorção petista refere-se à insensibilidade social de quem só se preocuparia com a economia. Os fatos são diferentes: com o Real, a população pobre diminuiu de 35% para 28% do total. A pobreza continuou caindo, com alguma oscilação, até atingir 18% em 2007, fruto do efeito acumulado de políticas sociais e econômicas, entre elas o aumento do salário mínimo. De 1995 a 2002, houve um aumento real de 47,4%; de 2003 a 2009, de 49,5%. O rendimento médio mensal dos trabalhadores, descontada a inflação, não cresceu espetacularmente no período, salvo entre 1993 e 1997, quando saltou de R$ 800 para aproximadamente R$ 1.200. Hoje se encontra abaixo do nível alcançado nos anos iniciais do Plano Real.

Por fim, os programas de transferência direta de renda (hoje Bolsa-Família), vendidos como uma exclusividade deste governo. Na verdade, eles começaram em um município (Campinas) e no Distrito Federal, estenderam-se para Estados (Goiás) e ganharam abrangência nacional em meu governo. O Bolsa-Escola atingiu cerca de 5 milhões de famílias, às quais o governo atual juntou outras 6 milhões, já com o nome de Bolsa-Família, englobando em uma só bolsa os programas anteriores. 

É mentira, portanto, dizer que o PSDB “não olhou para o social”. Não apenas olhou como fez e fez muito nessa área: o SUS saiu do papel à realidade; o programa da aids tornou-se referência mundial; viabilizamos os medicamentos genéricos, sem temor às multinacionais; as equipes de Saúde da Família, pouco mais de 300 em 1994, tornaram-se mais de 16 mil em 2002; o programa “Toda Criança na Escola” trouxe para o Ensino Fundamental quase 100% das crianças de sete a 14 anos. Foi também no governo do PSDB que se pôs em prática a política que assiste hoje a mais de 3 milhões de idosos e deficientes (em 1996, eram apenas 300 mil). 

Eleições não se ganham com o retrovisor. O eleitor vota em quem confia e lhe abre um horizonte de esperanças. Mas se o lulismo quiser comparar, sem mentir e sem descontextualizar, a briga é boa. Nada a temer. 

Fernando Henrique Cardoso

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